sábado, 9 de novembro de 2024

Acudam-me a vida

É absurdo olhar em frente
Se agitado em cama quente,
Penso: ‘A morte está a chegar.
É o fim! O não-ser vai regressar.’
 
O corpo remexe neste futuro,
Permite-se ao pavor, prematuro. 
Há fragilidade nesta aflição:
‘Morrerei esta noite? Talvez não.’
 
‘Acudam-me a vida, a minha existência!’
Fecho os olhos e adormeço com a dormência.

 

sábado, 28 de setembro de 2024

Tradição do querer

Ando à cata de outro cenário
Que signifique esta densidade. 
Se tudo na vida é temporário
Faz sentido ter mais vontade?
 
Afio o meu degredo no intento,
Dou-lhe mais gozo e festa farta.
Sou a celebração em acrescento
Mas esta ilusão não me descarta.
 
Este é o meu entretém invisível:
A tradição do querer... tão previsível! 

sábado, 21 de setembro de 2024

Urge-me

Tudo quanto existe é tingido pelo desgosto.

Toda a lástima é carregada pelo inerte,

Pela pedra que chora e pela terra que inflete.

O peso da memoria é renovada em composto.

 

Um lugar sereno de arrefecida natureza,

A abundância é ausência em putrefação.

Entra o termo e arruma-se toda a condição.

A leveza fica objeto, nutrimento da bicheza. 

 

Num corte de tempo tudo fica dejeto.

Urge-me a vida, vivo-me inquieto.


 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Má Ventura

Quanto ódio carcomido
Repousa na tua insónia acurada?
És farpa de amor fugido?
És desabrigo com ausência relembrada?
 
Sei que és cura para qualquer espantalho
Esfarrapado, alarmista e lazarento.
Amparas o cobarde, o paspalho,
Vestes a ignorância no teu assento.
 
Triste e tão má Ventura,
Hoje há medo a pedir bravura!

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Ruído

Ruído,
Do ruído eu faço um silêncio.
Um jeito a que eu pertenço
E em que não me descaio. 
 
É tão certo.
É um destino atado ao vazio.
Uma lembrança encontra desvio
E a lucidez perde coragem.
 
É sombra,
Longe de qualquer intenção. 
Num mundo cheio de celebração
Faz da falta a sua casa. 
 
Aí, ilusão.
Deixaste-me viciado por tão pouco.
Aí, ilusão.
Pensava eu que era o louco.